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sábado, 3 de janeiro de 2026

Individuação

Já faz algum tempo que eu tenho pensado sobre como eu venho passando por um profundo processo de realinhamento interno . Esse processo levou anos, quase uma década, para alcançar um importante ponto de confluência de vários aspectos internos: a compreensão e o significado da individualidade. E isso mudou tudo.

Esse processo está claramente documentado nas postagens do blog nos últimos anos. Foi uma caminhada que, se vista superficialmente, pode até parecer paradoxal. É muito fácil perceber como as postagens, e, portanto, meus pensamentos e emoções, sempre se voltaram muito para conexões afetivas, uma existência coletiva e o compartilhamento de emoções e memórias. Em uma primeira análise, nada disso parece alimentar uma noção de individualidade, mas, essencialmente, foi o que permitiu compreender o ponto central de existir como um indivíduo em um mundo compartilhado.

Eu não tenho a ambição de explicar racionalmente o que foi esse processo. Eu já dediquei muitos dos textos do blog a uma espécie de racionalização das emoções, por ser a forma que eu desenvolvi para alinhar e manter o balanço interno entre as incertezas da alma e as certezas da mente na minha vida. Mas isso não serve bem para o que estou sentindo aqui, não agora. E, por isso, eu sei que, para qualquer um lendo isso, este vai parecer um dos textos mais confusos que eu já redigi.

A questão é: qual o sentido do individual quando não há o coletivo? O contraste define. Entender a essência e o valor das conexões, no final do dia, nos convida a olhar para dentro, para o mais íntimo. E isso é assustador em um primeiro momento. Assustador porque somos feitos de tantas camadas, tanta nuance, tantos aspectos diferentes, memórias, sombras, experiências, pensamentos e emoções, todos entrelaçados de uma forma tão complexa que parece até algo inatural, uma quimera, o incompreensível. E tudo que não temos a capacidade de compreender causa medo.

Talvez a maioria das pessoas jamais ouse encarar a si mesma de forma sincera, seja por medo ou pela forma superficial que a vida moderna continuamente nos incentiva a olhar para nós mesmos. No entanto, o que eu finalmente entendi foi que tudo que eu vivi nos últimos anos me direcionou e preparou, lentamente, para entender uma das verdades mais importantes da vida: a da individualidade como centro existencial.

Não uma noção egoística da existência. Apenas uma noção puramente existencial, que existe a despeito de qualquer ação sobre ela, qualquer adjetivação. Mais do que pensar ou agir, é sobre o “ser”. Eu mentiria se dissesse que realmente sei sobre o que estou falando, porque, justamente, não é sobre saber, é sobre sentir!

O pouco que posso racionalizar sobre isso diz respeito às consequências de olhar para dentro e perceber como isso ressignifica tudo. Conexões não perdem o valor, de certa forma se tornam até mais valiosas, mas em um campo diferente da vida. Não como complementares, mas como paralelas. E surge a compreensão profunda, não apenas racional, de que você é o único responsável por si mesmo.

É como naquela canção do Emicida que diz: “você é o único representante do seu sonho na Terra, então levanta e anda”.

2025 deixou para trás muitas coisas importantes e certezas absolutas. Muitas delas com dor e pesar. Eu costumava achar que minha natureza caótica e emocionalmente intensa era um problema e que demandava supressão. Não foi à toa que uma necessidade tão grande de certezas e controle surgiu na minha forma de lidar com a vida. Mas, no final das contas, faz muito mais sentido encontrar a beleza em si mesmo do que negar a si mesmo.

Tem tanta coisa que eu poderia tentar expressar aqui agora. Mas acho que não faz mais sentido. E assim vamos, com menos certezas e mais caos. De certa forma, é até divertido.

Daily post

It’s important to say that connections haven’t become unimportant to me. I just realized they can’t define the core of my existence. It’s interesting to think that not only reflecting on the meaningfulness of connections led me to understand this, but also that a specific connection showed me the beauty of deeply looking at yourself and fully feeling your “being.”

This reminds me of the song “Intro: Persona” by RM from BTS. I came across it recently and realized its rhythm works really well for rollerblading and lab work, so I’ve been listening to it a lot. What struck me even more, though, is that the lyrics revolve around the concept of persona and the lifelong search for the self:


"나는 누구인가 평생 물어온 질문

Who am I? The question I had my whole life

아마 평생 정답은 찾지 못할 그 질문

The question which I probably won’t find an answer to my whole life

How you feel? 지금 기분이 어때?

How you feel? How're you feeling right now?

사실 난 너무 좋아, 근데 조금 불편해

Actually, I'm real good but a little uncomfortable"


Gosh, so many things changed with a single inner shift, it’s really scary in some ways. It also makes me think of a book I’ve been reading, The Lathe of Heaven by Ursula Le Guin. In this story, a character discovers that his most intense and vivid dreams are capable of shaping reality outside the realm of sleep. Literally, if he dreams that it’s heavily raining, he wakes up to a storm. After this realization, he becomes terrified. He’s afraid of changing reality through his dreams and decides to stop dreaming, even if that means he has to stop sleeping altogether.

It sounds like pure sci-fi, but aren’t our dreams the main drivers of change in our lives? And still, we’re often afraid to dream.

Post-scriptum

As últimas semanas têm sido calmas. Eu estou mais calmo. E assim a vida segue em um ritmo mais tranquilo, ainda que tantas coisas estejam se reassentando e mudando. Eu passei o período de recesso sozinho no lab e isso foi bom também. Foi bom pra aprender que solicitude é mais do que o nome de uma cidade em Skyrim. (:

Eu entendi de forma muito profunda que, essencialmente, eu estou sozinho em Nova York. E não digo isso de forma triste ou solitária, mas de fato com solitude. Eu tenho a mim mesmo e isso é o suficiente, ainda que não seja fácil, mas a vida nunca é fácil.

Eu tenho aproveitado mais as pequenas coisas do dia. Desde uma parada no trabalho pra apreciar comigo mesmo um latte, ou sentir o sol na pele em meio a dias tão frios de inverno, escutar e “sentir” uma canção, cozinhar algo gostoso, assistir algo que fiquei postergando por anos ou mesmo escrever esse texto.

E é engraçado perceber como isso tudo também me fez ressignificar a importância e o papel das conexões afetivas. Agora, escrever ou conversar com alguém parece até ter mais significado. Fica muito nítido como algumas pessoas se conectam por uma vontade genuína ou de forma quase automática, condicional ou funcional. Os limites emocionais dos outros também se tornaram mais nítidos quando eu passei a olhar de forma mais sincera para os meus próprios. Estabelecer uma conexão, hoje, é mais sobre encontrar outro inteiro do que precisar ou se moldar ao outro.

Eu acho que a estrutura do daily-post e post-scriptum ficou toda invertida dessa vez, mas quem se importa, né? haha. Pra seguir a tradição de incluir fotos na publicação, vou deixar uma foto que conversa muito com tudo o que está escrito aqui, mas de uma forma muito simbólica: minha nova camiseta do clube de taiko da Columbia University. Fazia tempo que eu não vestia vermelho (minha cor favorita quando eu era adolescente). Gostei da ilustração na parte de trás, representando o leão da Columbia!



OBS. É tão difícil escrever em português com um teclado configurado só para inglês T.T

domingo, 19 de outubro de 2025

Entre dois lares e lar nenhum

Estou escrevendo este texto em um vôo entre Fortaleza e São Paulo.

Voltei temporariamente ao Brasil, após mais de um ano nos Estados Unidos, para participar de um congresso. Daqui a dois dias, estarei embarcando de volta para Nova Iorque, para ficar por pelo menos mais dez meses, talvez mais.

Vir ao Brasil, como era de se esperar, foi como voltar para casa. Mas, de forma inesperada, voltar para Nova Iorque também parece, de algum modo, um retorno ao lar. Por outro lado, quando penso mais profundamente sobre o que significa voltar para casa, às vezes me pergunto se eu ainda tenho, de fato, um lar para onde retornar. E quando digo isso, há tantas camadas, tantos significados entrelaçados, que é impossível traduzi-los por completo. Talvez ninguém que leia este texto consiga realmente captar tudo o que quero dizer.

O Brasil, e mais especificamente São Paulo, foi onde nasci e vivi toda a formação da minha identidade. Minhas raízes estão aqui. A forma como aprendi a entender, sentir e existir no mundo foi moldada pelas experiências que tive aqui.

Qualquer um pode imaginar o quanto isso carrega de nuances, de histórias, de pertencimento. Mas, embora eu ame e tenha integrado à minha essência muitos aspectos da cidade, os lugares que gosto, o ritmo apressado, a frieza e até certa amargura dessa metrópole tão intensa, nada disso é o mais importante quando penso em lar.

Pensar em lar me remete à ideia de segurança emocional e acolhimento. Um lugar onde você pode repousar o coração. E isso me leva diretamente a pensar em pessoas, em conexões. E acho que, pra quem lê este blog há algum tempo, já está claro o quanto acredito na importância dos vínculos afetivos.

Antes do congresso, passei duas semanas em São Paulo para renovar meu visto americano. Nesse período, pude rever minha família e meus amigos mais próximos. O acolhimento que recebi de cada um deles foi uma das experiências mais preciosas que já vivi.

Eles mudaram suas agendas, reorganizaram seus dias, só pra me ver, mesmo com minhas limitações de tempo. Eu amo meus amigos, profundamente. Uma parte enorme do meu coração está aqui no Brasil com eles.

Mas, de algum modo, outra parte também ficou em Nova Iorque. Mesmo que o tempo vivido lá seja tão menor que toda uma vida em São Paulo, há memórias significativas o suficiente para desequilibrar essa balança emocional.

Outro ponto é que lar também tem a ver com perspectiva. Nova Iorque não me oferece segurança emocional, pelo contrário, mas carrega promessas. E, de alguma forma, isso convence o coração de que lá também pode ser um tipo de lar.

Assim, o coração parece se dividir entre dois lugares, tentando entender onde pertence. E, em meio a essa divisão, às vezes perde a base, perde a noção clara de pertencimento.

É nesses momentos que surge a sensação de não ter realmente um lugar pra voltar. Um lar que acolha completamente a alma. Porque, onde quer que eu esteja, uma parte de mim sempre vai sentir falta do outro lar.

Como diz Jorge Drexler:

Tão importante quanto saber de onde viemos é entender que somos de nenhum lado por completo, e de todos os lados um pouco.”

Daily post 

These days during the conference were the best in a long time for many reasons. I met some colleagues, my PhD advisor (even today he keeps supporting me 🥹), my current postdoc supervisor (he is so great... I felt my heart lighter after meeting him), and professors that I have so much admiration for.

My cousin also attended the conference. We presented our project together! Having her, such a good friend, here in Brazil, getting to know my roots, made me feel truly happy. We also had time to have some fun there. I will always keep these memories in my heart! :)

Post-scriptum 

Decidi escrever algo mais simples dessa vez, apenas pra colocar um pouco pra fora o que venho sentindo. Poucos terão o contexto pra entender, mas minha vida está um pouco caótica e cheia de mudanças.

Mudanças que trazem medo e insegurança, que reforçam essa sensação de não ter um porto seguro, um lar emocional. Que reforçam a necessidade de saber se apoiar no chão com os próprios pés e manter equilíbrio com as próprias forças.

Há uma série de decisões difíceis pela frente, sem garantias de que sejam as certas, apenas com a certeza de que precisam ser tomadas.

domingo, 6 de julho de 2025

Saudades, parte III

Em meio ao sentimento de saudade, da distância dos amigos e família, surge uma pergunta:


  Afinal, o que torna um laço afetivo significativo e duradouro a ponto de causar saudades?


Essa é a terceira parte de um texto sobre saudades. Na primeira parte, eu desabafava como era difícil lidar com a saudade de pessoas queridas que estavam distantes. Na segunda parte, escrevi uma reflexão mais profunda sobre como laços afetivos e experiências compartilhadas se refletem no desenvolvimento sentimental e em nossas histórias de vida. Nessa terceira parte, gostaria de dar um passo adiante, mais racional, e tentar entender como e porquê conexões se formam, se mantém ou se desfazem.

Talvez o ponto principal desse texto seja a observação de que algumas conexões mesmo há quilômetros de distância, em uma condição com tantos limitantes, se mantém firmes (e as vezes até se fortalecem mais!) enquanto outras, que a primeira vista parecem mais fáceis de se manter, se tornam frágeis, superficiais, não se desenvolvem ou mesmo se desfazem em pouco tempo. 

Vou utilizar alguns eixos para guiar essas reflexões: 1) a natureza da conexão; 2) o contexto em que a conexão se formou; 3) intensidade vs profundidade; 4) reciprocidade; e 5) expressão e acolhimento do afeto.


Natureza da conexão

Em princípio, pode parecer algo simples de se definir: uma conexão de amizade, de amor, de fraternidade, etc. Mas se tentarmos definir concretamente uma diferença entre amizade, amor e fraternidade, apenas como exemplo, podemos até encontrar alguns pontos exclusivos, mas há tanto em comum que na prática pode ser difícil diferenciar completamente uma coisa da outra. Eu, pessoalmente, não acredito que seja possível colocar sentimentos em caixinhas específicas e bem delimitadas. Sentimentos são fluidos. E isso, inevitavelmente, torna a natureza das conexões afetivas formadas por esse sentimentos igualmente fluidas.

Talvez isso não seja algo generalizado, mas, ao menos em minha experiência pessoal, eu reconheço algumas amizades com o mesmo nível de intensidade e profundidade mas com uma natureza bastante diferente quando colocadas lado a lado. É difícil classificar e descrever aqui de forma clara, porque, no fundo, o que diferencia essas amizades é o amálgama de sentimentos e experiências que definem esse vínculo afetivo. E isso é completamente difuso e complexo! 

E é dessa mistura tão cheia de nuances que se criam conexões com naturezas diferentes. Desde uma amizade que também é seu amor para vida toda, ou uma amiga que é sua irmãzinha no coração, amigos com olhares de cumplicidade pura que se reconhecem nas camadas mais internas, ou mesmo afetos que são mais intelectuais, ou mais ligados a questões práticas ou funcionais de determinado contexto, e até conexões que se manifestam por meio de um afeto mais superficial.

Na prática, você se sente mais a vontade de conversar sobre determinados assuntos com um amigo e menos com outro? Ou sente mais apoio em relação a determinada questão emocional do que sobre outras? Ou sente que faz mais sentido estar com um amigo em alguns determinados tipos de situação mas não em outros? Ou mesmo sabe que não pode contar muito com uma conexão mesmo que sinta vontade de estar com ela? Não digo que não exista uma conexão afetiva plena e universal, que faça sentido ter por perto a todo e qualquer momento, para qualquer situação. Existe, é raro, mas existe. Porém, na maioria das vezes, é mais sobre não enxergar os detalhes mais sutis daquela relação do que ela ser de fato universal.

Nesse sentido, eu diria que uma coisa ao mesmo tempo linda e assustadora é como há uma infinidade diferente de laços afetivos possíveis. E faz parte do processo de conexão reconhecer, aos poucos, as nuances dos sentimentos que formam esse vínculo.  E, a depender dos tipos de sentimentos envolvidos, podemos formar conexões com naturezas mais ou menos perenes, mais ou menos intensas ou mais ou menos profundas. Ou, às vezes, simplesmente não há compatibilidade entre os conjuntos de sentimentos que cada ponta do laço carrega, mesmo que todo o restante favoreça essa conexão. 


Profundidade vs intensidade 

A natureza da conexão se relaciona muito diretamente com a forma como essa conexão se manifestará no coração dos envolvidos. Às vezes formamos um laço tão bonito e tão intenso, mas sem profundidade real. Ou, aos poucos, um afeto vai criando raízes em nosso íntimo mesmo sem se manifestar da mesma forma em intensidade. Na realidade, diferenciar intensidade de profundidade  muitas vezes é difícil - eu mesmo vivo confundido essas coisas. 

Mas, pensando sobre tudo, e refletindo sobre as pessoas que tenho em meu coração e que me fazem sentir saudades, acho que posso afirmar o seguinte: a profundidade afetiva cria uma base duradoura e firme para a conexão, o que, para os propósitos desse texto, resulta em saudade na definição mais bela dessa palavra. Intensidade, por outro lado, não cria base, mas catalisa o que vem da raiz. Um afeto profundo e intenso dói na distância mas também nutre de amor. Um afeto intenso, mas sem profundidade, gera um sentimento de falta, de vazio, e, mais do que tudo, não nutre, não mantém, não aquece o coração.

Então o que leva uma amizade, ou um amor, a criar raízes profundas? Essa é uma pergunta mais difícil de responder, pois, como já comentei, cada conexão tem uma natureza única e se desenvolve de forma particular. Mas, me permitindo divagar sobre isso, eu diria que profundidade, na maioria das vezes, se cria a partir de pequenos gestos compartilhados, em um contexto que permite que o afeto se alimente de amor, e, principalmente, de forma recíproca.

Acho que laços se desfazem primariamente por nunca terem se tornado fortes (ou profundos) o suficiente para criarem uma base que se mantém mesmo quando o contexto impõe limitações. É como uma árvore, precisa ser cuidada e nutrida com carinho até que possa se manter firme e dar frutos. E, hoje, no mundo em que vivemos, tão apressado, tão superficial, parece ser difícil existir contexto ou vontade de ter esse cuidado. Eu gosto muito desse trecho da canção "Arbolito punk", acho que diz muito sobre isso:

Soy un arbolito que vá

Subiendo hasta el cielo

Y mis raíces crecen fuerte

Y profundas en el suelo

Se a vida é um movimento

Sementinha de sanação

Me siento segura com meu alento

E a força do meu coração

Y por eso estoy conectado

Con lo que hay, con lo que fue

Y lo que será


Contexto

Da mesma forma que a natureza de um laço afetivo possui uma infinidade de possibilidades, também há vários contextos nos quais ela pode surgir, se desenvolver e permanecer (ou não). Esses contextos não somente moldam de alguma forma como essas conexões se manifestam, mas também regulam as possibilidades de aprofundamento afetivo ou o quanto de intensidade pode ser expressado. 

Pode ser uma amizade de infância, que surgiu em um contexto de pureza e ingenuidade, livre para crescer com todo o tempo do mundo. Pode ser um sentimento de fraternidade que se intensificou e ganhou profundidade por um contexto de vulnerabilidade compartilhada. Pode ser, ainda, uma amizade que surgiu em um contexto cheio de limitações e rigidez emocional, que limita a expressão de carinho. Pode ser uma amizade vinculada a um projeto/trabalho/estudo com prazo para se encerrar.

Já está claro, nesse ponto, que uma conexão se torna significativa a ponto de gerar saudade por múltiplos fatores. O contexto é um deles, mas é o único fator essencialmente externo, ambiental por assim dizer. Amizades nos contextos mais improváveis e restritos se criam e se fortalecem, mas geralmente requerem um envolvimento maior das duas pontas do laço. Algumas das minhas amizades mais profundas surgiram a partir de contextos que restringiam o desenvolvimento afetivo, como um ambiente formal de trabalho, mas foram de uma forma ou de outra superados pelo interesse mútuo em criar oportunidades para cultivar o afeto e manter uma conexão real.

Além disso, outro ponto importante é que a vida é movimento e tudo sempre está mudando. Contextos mudam o tempo todo. Uma amizade, que surge em um momento de muita proximidade e cumplicidade, pode passar por contextos que impõem distância física, por exemplo. Nesse caso, será que houve tempo e envolvimento suficientes para criar uma base que mantém o laço bem atado? E, mais do que isso, em uma mudança grande, há mutualidade em relação ao carinho que se tem por aquela conexão? Às vezes certos desalinhamentos só se apresentam em contextos de limitação e conflito e podem resultar em uma espécie de quebra do contrato do laço afetivo gerado em um momento mais simples.

Haven, um jogo de um estúdio independente francês, ilustra muito bem como o contexto dialoga diretamente com conexões afetivas (spoilers a frente!). 

Ilustração do jogo Haven, mostrando o casal que acompanhamos ao longo da história (adoro essa arte)

Nesse jogo, um casal apaixonado foge de uma sociedade com regras rígidas que impediam a expressão do amor deles. Nesse novo ambiente, completamente sozinhos, eles vão criando um lindo laço de cumplicidade, companheirismo, suporte e amor. No entanto, em determinado momento todo o contexto muda e volta a ameaçar a expressão do amor deles. Mais do que isso, a continuidade da conexão passa a colocar a vida deles em risco. 

Há dois finais possíveis no jogo. Em um dos finais, no ápice da pressão que estão sofrendo um dos personagens simplesmente não consegue manter o investimento emocional necessário para manter a conexão e desiste. Isso gera uma óbvia quebra daquele laço e a separação. Por outro lado, no segundo final eles decidem mutuamente entregarem tudo de si, confiando tudo um ao outro, mesmo correndo o risco de perderem tudo. Esse conflito não só fortalece e aprofunda o laço deles como também permite que eles permaneçam juntos no final.


Reciprocidade 

O exemplo anterior, do final de Haven, mostra que além do contexto, outro fator, talvez o mais fundamental, é a reciprocidade. A decisão dos personagens, de lutar ou não para ficarem juntos, é, no final das contas, definido pelo grau de reciprocidade que há naquela relação. Um dos personagens estava disposto a ir até o final, independente das consequências. Mas se o outro não possui o mesmo nível de comprometimento com a conexão afetiva, não há nada o que possa ser feito. Não sem dor e tristeza.

Então, se o contexto é um fator externo, aqui estamos falando de um fator interno, mas no interior do outro também. A reciprocidade, por definição, é o fator mais determinante na criação, desenvolvimento e, principalmente, manutenção de um laço afetivo. Não existe viabilidade para uma conexão alimentada de forma unilateral. Relações desbalanceados, em que uma das pontas do laço carrega um peso maior, podem até se manter por algum tempo, mas a preço de dor, frustração e tristeza. 

Quando um lado alimenta a conexão com carinho, presença e suporte, mas o outro lado se mantém passivo, ou com muito menos entrega, o lado que carrega a relação pode sofrer muito. Se há muito carinho, isso pode gerar um situação de muita dor, pois largar o laço, ao mesmo tempo que representaria a libertação dessa prisão de dor, também significaria perder algo importante. Isso pode gerar o que há de mais triste, trágico e degradante em conexões afetivas. 

Muitas vezes isso também pode resultar em uma espécie de dissonância entre os dois lados da conexão em que para um há carinho, afeto e amor e para o outro uma relação de amizade mais funcional. Pessoas mais emocionalmente abertas em ambientes formais convivendo com pessoas mais práticas e pragmáticas tendem a estabelecer esse tipo de relação afetiva-emotiva vs afetiva-funcional. É como se a natureza da relação fosse diferente para cada um dos envolvidos.

Por outro lado, a reciprocidade é uma das coisas que mais pode tornar uma conexão afetiva bonita e enriquecedora emocionalmente. Entregar carinho e receber ternura. Entregar presença e receber acolhimento. Entregar vulnerabilidade e receber suporte. Entregar anseios e receber carinho. 

E muitas vezes isso se traduz em pequenos gestos do dia a dia. Como um sorriso e um abraço em um momento de cumplicidade. Apoio e ajuda em momentos mais atribulados. Um convite para um chá ou um café para celebrar uma conquista, ou descansar depois de um dia duro ou apenas para conversar um pouco. A presença atenta, ou mesmo silenciosa, quando há tristeza. Às vezes um singelo "obrigado" vindo do fundo do coração. Um olhar mutuo de cumplicidade no momento certo ou uma conversa divertida, aberta e sem defesas. Um convite para diversão para escapar um pouco de um contexto rígido e formal. Uma refeição ou sobremesa preparada com carinho. Ou às vezes apenas uma simples pergunta "Você está bem? Precisa de algo?".

Eu sinto que tenho muita sorte por ter mantido amizades tão queridas pra mim durante muitos anos. E, olhando hoje, todas essas amizades se mantiveram pela disponibilidade mútua. Desde priorizar tempo para aquela pessoa importante pra você, até se manter aberto para manter uma troca emocional sincera.

Cada laço afetivo se materializa de uma forma diferente a depender dos inúmeros fatores que emergem em seu entorno. No entanto, no final das contas, trata-se da disponibilidade emocional e/ou afetiva.. a expressão dessa disponibilidade pode vir de formas diferentes, mas  sempre precisa estar lá.


Expressão e acolhimento individual de afeto 

A expressão mútua de carinho e busca por conexão é essencial, mas a forma como isso se efetiva individualmente pode fortalecer ou enfraquecer um laço afetivo. Cada pessoa tem seu próprio conjunto de valores, experiências, limitações emocionais, possíveis traumas e capacidade de expressar emoções. A combinação de todos esses tratos internos resulta em uma forma única de expressar E acolher sentimentos. 

Algumas pessoas se expressam mais abertamente, com muita clareza, outras preferem se apoiar na ambiguidade, outras são mais fechadas ou tem dificuldade de lidar com emoções. Não existe uma fórmula ideal, mas conexões afetivas precisam ser alimentadas com algum nível de carinho e cuidado para perseverarem. A busca por uma compatibilidade entre formas diferentes de expressão de carinho e amor pode ser árdua em uma amizade. Duas pessoas muito expansivas emocionalmente podem se afastar, por exemplo. Uma pessoa mais sensível e de coração aberto pode se sentir desconectada de uma pessoa que se expressa de forma mais contida ou fria. Uma pessoa que tem mais travas para acolher sentimentos pode achar demais a entrega de alguém mais intenso emocionalmente.

Duas pessoas podem ter todas as condições do mundo para formarem uma linda conexão, e podem até mesmo ter toda a vontade e interesse que isso ocorra, e ainda assim podem ser incompatíveis por conta de suas diferentes formas de expressar e acolher afeto. Além disso, para tornar tudo mais complexo, o contexto, a profundidade, a intensidade, o nível de reciprocidade, tudo isso influencia e retroalimenta o nível e tipo de expressão e acolhimento de amor e carinho em um laço afetivo.

Ao longo dos anos, eu fui aprendendo que minha forma de expressar afeto por pessoas que estão em meu coração é por meio de gestos de cuidado. Cuidar da pessoa por quem eu tenho carinho é minha máxima expressão de conexão. Às vezes isso se reflete em pequenos gestos rotineiros, às vezes em mensagens, às vezes em um olhar sorridente, às vezes em disponibilidade, às vezes em uma conversa. Mas o cuidado sempre está ali de alguma forma. E, justamente por isso, já me machuquei por querer criar vínculos afetivos com pessoas que tinham todo um conjunto diferente de formas de expressão afetiva ou que não se sentiam a vontade, ou não se permitiam, de acolher esses gestos. 

Nesse sentido, já me disseram que eu sou bonzinho demais com as pessoas e que isso me gera situações de desequilíbrio. Eu concordo, mas essa é minha forma de ser e mudar isso drasticamente significaria mudar quem eu sou. Além de reconhecer isso, é importante também entender que não nos cabe mudar nossa forma de ser para caber em uma conexão que não nos dá espaço para sermos quem somos de verdade.  também me disseram uma vez que foi essa minha forma de expressar carinho que fez uma pessoa se apaixonar por mim, o que diz muito também sobre preservar nossa essência. E quando reconhecemos isso, começa a ficar mais fácil entender por que alguns vínculos são mais firmes e nos causam tanta saudade e outros parecem se desfazer mais facilmente - não necessariamente por serem menos intrinsecamente valiosos, mas por serem menos compatíveis com nossa linguagem de amor e carinho. 


Saudades 

Com tudo isso em mente, acho que é possível tentar traçar uma racionalização pra entender porque algumas conexões afetivas ficam firmes e outras se desfazem ou nunca se tornam plenas. Racionalizar sentimentos tem uma série de limitações, pois sentimentos são para serem sentidos e não medidos ou matematicamente elucidados! Mas, ainda assim, considerando essas limitações, eu diria que a saudade que fica em nossos corações é a marca de uma conexão que se apresenta como algo que aquece o coração. Algo que teve contexto ou valor suficiente para que raízes se aprofundassem, com equilíbrio, no carinho e cuidado e compatível com os valores e forma de entregar e receber amor. Isso nem sempre significa que todas aqueles aspectos que levantei são compatíveis, mas que dentro da complexidade que define o contato entre duas pessoas, ainda que em contextos limitantes ou com linguagens afetivas diferentes, há conexão e vontade mútua de mantê-la viva. Isso deixa uma marca doce de ternura no coração e que permanece lá, mesmo a distância, aquecendo o peito em um sentimento de saudade. 

Por outro lado, infelizmente, às vezes por qualquer daqueles fatores,  a conexão, por mais importante que possa parecer, não se desenvolve e a tentativa de mantê-la pode apenas causar dor e ruído. E o que sobra é um vazio estranho, não uma saudade terna, mas uma perda fria. No mundo real, e considerando todos os fatores em jogo, é muito mais fácil chegar a esse desfecho do que o da saudade real. E, justamente por isso, eu sempre penso que minhas amizades tão profundas e duradouras são um milagre em minha vida - todas elas passaram por contextos que poderiam facilmente ter afrouxado os laços por uma perda do interesse mútuo de manter o laço firme, ou mesmo por diferenças culturais na forma de expressar carinho, ou simplesmente por um afastamento físico e contextual ao longo da vida. Mas, mesmo assim, com todas as probabilidades de se perderem, manteve-se uma troca genuína de carinho e, por isso, continuam aqui aquecendo meu coração enquanto escrevo esse texto. :)


Daily post

I’m writing this post in a very specific context. I’ve just received the renewal for my 1-year postdoc appointment, along with my new visa document! I’m truly excited about this, not only for the professional opportunities ahead (I am super excited about my new project!) but also for the extended time to enjoy NYC and spend more time with my dear friends here. Maybe I’ll even build new meaningful friendships.

That said, it also means staying far from most of my friends and family for an extended period. As I write this, I’m starting the 12th month of my current stay, which means I have never been far from my emotional support system for such a long time and also that I’m halfway through the planned time in NYC. A visit to Brazil is still uncertain, so I’ll probably only see my friends and family again after a full year. I do have a date to return home, even though, at times, NYC feels like home too. Still, I miss my friends. More than that, I feel saudade, and I’m sorry, there’s really no accurate translation for that word in English.

All of this has made me reflect on how lucky I am to have such caring, long-lasting friendships in my life. Coincidentally, this weekend I had meaningful conversations with a few of them. This week, I’ll probably have dinner with two dear friends and even a call with my little sister. When I say that friendships like these are miracles, I truly mean it. How is it that we’ve kept these connections alive for so many years, as if the emotional bond never faded?

One of my most precious friends, Gaby, has known me since our first semester of college (that’s almost 20 years ago!), and we still get together for coffee every month, or at least a video call now that I’m abroad. Or my little sister: every time I see her in NYC, I feel the same happiness I used to feel nearly a decade ago when we first met. These are just two examples, but I have other friendships that are just as meaningful, and I truly believe they are one of the things that make life worth living.

My little sister, my brother and my dear friend Chenghua, so many years ago at my send-off party

Post scriptum

Eu tenho trabalhado bastante no novo projeto. Sem dar muitos detalhes, vamos dizer que ele, de repente, se tornou mais desafiador do que se esperava quando foi idealizado. Felizmente, eu desenvolvo esse trabalho em conjunto com minha prima. Gosto bastante de trabalhar com ela, acho que formamos uma boa dupla científica e costuma ser divertido quebrar a cabeça com ela pra desvendar os mistérios dos reatores novos.

Quando digo prima, é um conceito sugerido pelo pesquisador líder do grupo de pesquisa, meu supervisor. Ele diz que doutorandos no mesmo grupo de pesquisa são irmãos e quando perguntado sobre posdocs e doutorandos, ele disse que são primos.

Honestamente, eu ativamente não gosto desse conceito proposto por ele porque, literalmente, é o oposto do que expresso quando me refiro a meu irmão Ranran ou minha irmãzinha Minxi. Quando eu faço isso, estou atribuindo valor, histórico e afeto real a relação com eles. Por outro lado, o conceito proposto pelo supervisor atribui de forma mecânica o título de irmãos/primos como algo puramente funcional. Isso dilui o significado de uma relação fraternal em uma relação de trabalho. 

Isso vai tão na contramão do que eu acredito, mesmo em relações de trabalho. Pessoas são mais do que suas funções. São seres humanos, com sentimentos, anseios, expectativas, sonhos, etc. Não há um botão de liga e desliga para isso, e respeitar o aspecto humano, mesmo em uma relação de trabalho, é o mínimo que se deve fazer. Por isso, se eu escolho chamar alguém de família, nunca será por convenção ou protocolo, mas sim por valores, afeto compartilhado e uma conexão real que tenha se formado ao longo do tempo.

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Pra finalizar, vou deixar uma foto do desejo que deixei no Tanabata Matsuri para o próximo ano.

UPDATE: vou deixar aqui tbm uma foto do jantar com meu irmão do coração Ranran e minha amiga Catherine. Deu um quentinho no coração :)

UPDATE 2: vou deixar tbm uma foto do encontro virtual que tive com meus queridos amigos do Brasil: Gaby, meu irmão Julio, Ju, e Silvia. De muitas formas, eles são o alicerce sobre o qual construí toda uma estrutura de afeto.


心の安らぎ - paz no coração :)

Uma tarde com coração quentinho :)


Mesmo a distância, meus queridos amigos seguem aqui comigo em meu coração :)




terça-feira, 6 de maio de 2025

Sentimentos fluidos e ambíguos

Como pode o coração ser tão forte e tão delicado ao mesmo tempo? Forte, por sua capacidade sem igual de carregar sentimentos tão genuínos, tão profundos e tão intensos. Delicado, por se estilhaçar em mil pedaços pelo simples descompasso desses sentimentos quando fora de sincronia.

O coração que tem por ofício, função primordial, formar conexões. Conexões que, ambiguamente, fortalecem a fundação cordial ao mesmo tempo que criam diversos pontos de fragilidade.

O núcleo primordial da humanidade. O sentido da vida. Sentimentos fluidos e ambíguos, que nos fazem sentir vivos. Que nos fazem sentir vivos apesar da dor. Em função da dor. 

Quando ferido profundamente, demanda tanto tempo para cicatrizar. Cicatrizes que ficam expostas, para quem tem sensibilidade suficiente para perceber, durante toda uma vida. 

Às vezes o coração é grande demais. Maior do que o mundo. Mais complexo que o mundo. Mas ainda assim singelo. Sentir, conectar, sentir. Nada mais que isso. 

Demanda carinho, demanda cuidado. Atenção e bondade. Quer amar - ou ser amado? Não sei. É fácil perdê-lo e se perder em sua sincronia caótica de batidas. 

Amor? Um dia conheceu, em sua mais pura e intensa forma. Alegria? Não cabia no peito, extravasou. Carinho? Aquele que vem do âmago e que é ternamente recebido. Dor? Mais que tudo, a maior de todas, não dá nem pra respirar! Tristeza? Por não caber no peito, abriu espaço e criou refúgio nas camadas mais internas. Solidão? Quando as bases desmoronam. Medo? Construído em meio ás ruínas do coração - como uma nova fundação, de temor.

Continuamente se reconstruindo, não de forma linear, de forma imprevisível. Mas não sem sentido! Aos poucos alcança a paz. A paz que vem do entendimento tranquilo, frio. Ilumina as bases, antes sequestradas pelo medo. Se reencontra com a razão, mas vai além, no caminho da esperança. Não na esperança vã, mas em uma esperança elegantemente desenhada, projetada pela compreensão, levantada sobre as bases do amor, próprio e pelo mundo, iluminada pela razão, fortificada por uma série de laços, em um emaranhado de nós que se se desenrolam, conectam e, as vezes, se desfazem ao longo do caminho, e adornada lindamente pelas memórias, de dor, tristeza, carinho e alegria.

Os mistérios do coração, nunca desvendados, que nos moldam tanto, mas tanto, que nos fazem acreditar em todos os tipos de possibilidades, até mesmo aquelas que racionalmente negávamos com todas as nossas forças. E que nos fazem sofrer infinitamente quando nos convence que a única realidade possível, inexorável, é o vazio. 

Assim é, incompreensível à primeira vista, fluido e ambíguo. Etéreo, essencial em todos os aspectos, mesmo nos mais contraditórios.

Tão forte e tão delicado!

Tão forte. E tão delicado. 

Forte... E delicado...

Até o fim.


Daily post

I have been feeling a certain peacefulness that I haven't felt in a long time — in years, I would say. It’s very hard to put into words everything I've been feeling recently. So many emotions combined! Just for some context, I have less than three months left to finish my activities at Columbia University, and I’ve just started an extension application process. It may or may not be approved; the only certainty is that the answer will come at the last minute. Despite the chaotic moment, or perhaps because of it, a few insights about how life has been unfolding emerged as a kind of recalibration of priorities. This mechanism has been helping me rethink the weight I give to everything around me. Sometimes, a problem or difficulty that seems impossible to deal with is just disguised, covered by a layer of frustrations, disappointments, fear, and anxiety that have built up over the years. Once that heavy emotional blanket is removed, it becomes clear that the issue doesn't hold that much power to hurt or frighten you anymore. And that’s how I’ve been moving forward, trying to see things from a different perspective, with a more gentle referential when it comes to myself. All of this also made me reflect on how, so often, things we don’t know how to deal with get stored deep within us. Over time, and almost without realizing it, we start subconsciously processing and restructuring them. When that combines with more life experience, emotional maturity, and a willingness to shift perspective, they slowly transform into something lighter. And just like that, the world takes on a new shape — more kind, less intimidating, more exciting!


Post scriptum

Retomando levemente o assunto que mencionei no último post scriptum - os males da carreira acadêmica - repensar as prioridades e ressignificar questões que me afligem também significou olhar de uma forma um pouco diferente para a forma como a academia me afeta. Não vou aprofundar aqui (ainda acho que vale escrever um texto só sobre isso), mas, apesar de ser um processo contínuo e eu ainda estar no meio disso tudo, tentando me localizar melhor, essa reorientação geral serviu para ter um referencial mais leve ao olhar ao redor. Ao fazer isso, percebi ainda mais como muitos colegas acadêmicos não estão bem. Não é um ou outro caso, eu me arriscaria inclusive a dizer que todos com quem tenho um convívio mais próximo estão adoecendo aos poucos em função da sua atividade acadêmica profissional. Ansiedade, medo, frustração, baixa autoestima..
 
Eu já estive muito pior. Um dos momentos mais importantes foi logo antes de terminar o mestrado. Naquela época, decidido a iniciar o doutorado apesar das dificuldades do mestrado, concluí duas coisas: 1) precisava encontrar um ritmo que fosse minimamente saudável para viver os próximos 4/5 anos de doutorado; 2) precisava repensar a noção de valor próprio para que a mó da academia não me reduzisse a poeira. Sem entrar em detalhes, me apaixonei pelo meu tema de pesquisa, encontrei um ritmo  dinâmico de trabalho que combinava meu interesse  na pesquisa com o descanso físico e mental, conciliando com o interesse em outras áreas da vida. Foi quando comecei a andar de patins, inclusive. Mas, talvez o mais importante, foi que entendi que o principal referencial para medir minha evolução não era o colega ao lado, mas eu mesmo. O que eu aprendi hj? O que fiz de novo? Que habilidade desenvolvi? Se foi menos que o colega ao lado, ok. Ainda vivemos em um cenário de competição onde o número relativo de publicações e citações são colocados sobre a mesa o tempo todo, obviamente, mas, no final do dia, em uma perspectiva mais ampla sobre a vida, isso definitivamente não é o mais importante. As experiências vividas, o aprendizado, as conexões afetivas, e a marca que você deixa no mundo é o que realmente importa e isso vai muito além do que está descrito no seu lattes. Pra finalizar, deixo uma foto do meu novo patins - percebi o quanto eu sentia falta de patinar depois de ter me mudado para NY - não é uma coincidência. Nunca é. 

Meu novo par de patins, adorei eles!


domingo, 3 de novembro de 2024

O coração morre quando crescemos?

Criei o RexAurum em algum momento no início dos anos 2000, provavelmente quando eu tinha em torno de 12 ou 13 anos de idade. No auge dos blogs pessoais e, mais do que isso, em muitos sentidos, no auge da minha inocência e entusiasmo com a vida. A experiência de ler as publicações em ordem cronológica torna evidente uma tendência muito definida de 1) amadurecimento pessoal e profissional; e 2) amadurecimento afetivo/emocional.

Nada mais natural, uma vez que estamos falando de cerca de 20 anos de vida. Mas há ainda a percepção de evolução de um terceiro aspecto: melancolia, desesperança e cinismo. Será que é natural que o coração se endureça e se torne menos vivaz e esperançoso com o acúmulo de experiências? É sobre isso que gostaria de escrever de forma mais leve hoje.

Para guiar tais reflexões, gostaria de considerar uma canção que descobri recentemente e que se conecta muito bem com o tema dessa publicação:

"When You Grow Up, Your Hearts Dies
De GUNSHIP

Antes de qualquer coisa, recomendo ouvir a música. É uma bela canção, com muitas frases que nos fazem pensar sobre o valor da vida. Utilizarei algumas dessas frases ao longo do texto.

O coração tende a virar uma rocha rígida e sem vida com o tempo?

Curiosamente, há algum tempo, pela ocasião de uma conversa sobre tipos de rochas, eu estava revisitando em minha memória as aulas de geologia que tive no primeiro ano da graduação e isso vem muito a calhar agora. Por favor, me acompanhe um pouco enquanto percorremos esse campo da geologia - prometo que vai fazer sentido no final! 

Basicamente, podemos dividir as rochas em três tipos principais: i. Ígneas; ii. Sedimentares; iii. Metamórficas. 

Rochas ígneas e a perda da inocência

Rochas ígneas são formadas pela exposição do magma à atmosfera na superfície da crosta terrestre (ou em regiões de baixa temperatura da crosta terrestre). Em eventos como erupções vulcânicas, o magma que estava contido nas camadas mais internas do planeta aflora e entra em contato direto ou indireto com a temperatura da superfície. Enquanto o magma, confinado no mais interior dos mundos, contém em si um calor natural, ao ser expelido para o exterior rapidamente encontra um ambiente completamente diferente, com uma temperatura muito inferior, e com maior nível de entropia. Isso resulta em uma rápida troca de calor, e dado que o mundo exterior é imensamente maior que aquela porção de magma, esse processo resulta no resfriamento do magma. 
Com menos energia agitando as moléculas do magma, ocorre a solidificação do material, culminando na formação da chamada rocha ígnea. Pode-se pensar que essa rocha perdeu seu valor vital, mas não se engane. Uma coisa que nem todos sabem é que erupções vulcânicas são um dos principais responsáveis pela liberação de minerais essenciais para manutenção da vida na superfície - o processo de formação de solo (pedogênese) em regiões assim resulta em solos extremamente férteis! 
Outra questão interessante é que, a depender das características do magma (especialmente a composição química), da temperatura exterior e da forma como ocorre o resfriamento do magma, uma série de diferentes tipos de rochas, em termos de composição e morfologia, pode ser formado. Assim, apesar de superficialmente parecer uma rocha endurecida e sem vida, a essência das rochas ígneas pode revelar ainda muitas surpresas em uma riqueza de padrões, formas e cores quando vistas com mais cuidado.


Exemplo de rocha ígnea intrusiva: granito 

Apesar de estarmos falando de geologia, é fácil relacionar o processo de formação das rochas com o amadurecimento e transformações que passamos ao longo da vida. Inicialmente, nossos corações são livres e cheios de energia e inocência. 

"Expect nothing and appreciate everything"

Quando entramos em contato com o exterior, digamos quando passamos a frequentar núcleos externos à segurança do núcleo familiar, há um choque de valores. O mundo absorve aquela energia vital primordial de um coração ingênuo e gera o seu primeiro grande processo de amadurecimento e enrijecimento: a perda da inocência. O choque de valores pode ser brutal ou ocorrer de forma gradual, mas sempre gera um delta de entropia elevado. Ainda assim, a essência daquele coração infante segue presente, agora sob uma camada mais rígida formada para proteção na interação com o mundo. Já parou para pensar como o primeiro ambiente que você teve contato fora de sua família teve impacto em sua vida? 

"Whatever will be, will be"

Rochas sedimentares e o amadurecimento

Voltando para geologia, após um longo processo de intemperismo físico e químico, as rochas serão fragmentadas em pequenas partículas. Com o tempo, essas partículas minerais são carreadas pelas águas, agora como sedimentos - o que nos leva à formação das rochas sedimentares.

As rochas sedimentares são formadas na base de bacias hidrográficas, a partir do carregamento de partículas sólidas ao longo do curso de rios até um reservatório final. Nesse reservatório, essas partículas vão se acumulando formando extensas e profundas camadas. Quanto mais profunda é a camada, maior o acúmulo de partículas sobre a primeira porção que foi formada inicialmente. Esse processo cumulativo pode levar milênios até que o peso, e portanto a pressão, é demasiado a ponto de começar a compactar as partículas a ponto de se tornarem um material agregado único e muito rígido. A esse material damos o nome de rocha sedimentar. Após uma série de processos que não vem ao caso detalhar aqui, esse material pode voltar a ser exposto à superfície, revelando sua nova condição de rocha. 

Interessante ainda pensar que, apesar desse material representar a uma nova condição, a avaliação cuidadosa de perfis de rochas sedimentares revela diversas caracteristicas específicas dos sedimentos originais e suas condições ambientais em uma dimensão temporal:


Exemplo de rocha sedimentar com seu perfil temporal nitidamente exposto em camadas

Voltando o olhar para o coração, com o tempo a vida vai acontecendo e vamos criando novas memórias, fragmentos de experiências, pequenas partículas que representam momentos da nossa vida. Podemos ter experiências boas que enriquecem nosso interior, mas também experiências traumáticas que geram grandes feridas. O acúmulo de cada pequeno fragmento, especialmente os traumáticos que causam maior sensação de pesar - produtos da reação entre nossos sentimentos e o mundo - gera uma nova condição emocional. É interessante pensar que um agregado de experiências únicas e variadas, quando concentradas e submetidas a uma pressão imensa decorrente do seu próprio acúmulo e peso geram um novo material, menos livre, mais rígido e autocontido. Assim, os sentimentos já não se encontram tão expostos, estando agora abaixo de uma camada de proteção mais densa e rígida em nossos corações. Todos temos experiências marcantes que nunca esqueceremos, elas certamente estão marcadas como camadas bem definidas no perfil temporal de nossos corações sedimentares. Você conseguiria identificar suas camadas?

"Just keep on keeping on"

Rochas metamórficas e o peso da vida

Agora vamos para a última etapa desse "ciclo geológico das rochas": formação das rochas metamórficas. Imagine que aquela rocha sedimentar jamais chegou a ser exposta à superfície e o processo de acúmulo de sentimentos seguiu-se indefinidamente. A pressão decorrente do acúmulo de milhões de sedimentos depositados ao longo de milênios acima daquela primeira camada inicial é tão alta que uma nova condição é formada. Nessa nova condição, a combinação de pressão e temperatura é tão intensa, que a rocha sedimentar apresenta uma mudança em sua estrutura mineral e cristalina, e, literalmente, transforma-se em algo novo: uma rocha metamórfica. Aquele magma que um dia foi condensado em rocha ignea e então fragmentado em pequenas partículas, a partir do processo de intemperismo físico-químico, que serviu como mineral base para o estabelecimento de vida, que um dia percorreu uma entusiasmante jornada ao longo de um rio cheio de meandros, até, finalmente, repousar em um local mais seguro, mais estável, sofre tanta pressão pelo acúmulo, mas tanta pressão, que já deixou sua essência original de lado e se tornou algo mais firme, pesado e resistente, indivisível por natureza.


Mármore, exemplo de rocha metamórfica formado a partir do calcário (uma rocha sedimentar)

O mesmo ocorre conosco. O acúmulo de incontáveis experiências e interações, felizes, empolgantes, motivadoras, tristes, traumáticas, desesperançosas, é tão grande que o coração precisa se recondicionar para não sucumbir com o peso emocional acumulado e seguir funcional.

"It's okay to feel lost"

Esse recondicionamento é muito particular de cada um e depende muito dos tipos de experiências acumuladas na vida. Além do mais, é uma metamorfose contínua, pois nunca alcançamos um estado final. É um processo fortemente influenciado pelas experiências passadas e, na prática, nunca existe um estado inicial bem delimitado ou estado futuro definitivo, existe apenas o estado em que se está.

"The only time that matters is right now"

E é assim que partimos de um coração aberto e livre, cheio de expectativas, para um coração muitas vezes cheio de fel, desesperança, culpa e arrependimentos, moldado pela pressão causada pelas decisões que tomamos ao longo da vida. Isso é inexoravelmente parte vida. Então será que estamos condenados, mais cedo ou mais tarde, ao resfriamento total do coração? 

O que sobra ao coração?

O texto poderia ser bem deprimente se acabasse aqui, mas só decidi escrever sobre esse tema porque, na realidade, venho refletindo sobre isso sob um ponto de vista mais positivo. Voltando à geologia, apesar de todos os processos que transformaram aqueles minerais primordiais, ainda podemos encontrar beleza em seu interior. Depois de tudo, sabendo onde olhar, pode-se encontrar uma nova forma de beleza nesse material formado em um processo tão violento, talvez até mesmo uma beleza mais refinada.

 O mesmo vale para o coração: apesar de endurecido, aquela essência inicial, bela e vivaz ainda existe em um coração amadurecido, mesmo que se apresente agora de uma forma diferente. O que eu, pessoalmente, percebi é que muitas vezes é apenas uma questão de mudar a forma de olhar ou de focar onde realmente importa para encontrar esse brilho tão importante para nossa vida. O mesmo dia, a mesma porção de experiências, pode ser percebida e sentida com empolgação ou com desesperança, dependendo do seu ponto de vista. Viver não é fácil. Ao viver sempre em estado de defesa, ressaltam-se e intensificam-se mais as camadas rígidas e sem vida do coração, e perde-se de vista sua parte mais delicada e frágil. O mundo parece naturalmente nos levar por esse caminho. Não é difícil desanimar quando seu dia já começa com problemas e dificuldades; pode parecer que essa condição desmotivante é perene e representa a essência da vida, ou ao menos da sua vida em particular.

No entanto, no final do dia, momentos ruins são apenas uma parcela da infinidade de experiências que o mundo nos oferece. Cada dia ruim precede um amanhã cheio de novas possibilidades; nunca sabemos o que nos espera no futuro. É como olhar para as rochas sedimentares e entender que cada camada formada, com uma cor, composição e intensidade diferente, é o produto de um acúmulo de um tipo particular de sedimento apenas (ou de experiências) e não representa a totalidade daquela rocha. Esses mesmos padrões se combinarão posteriormente para se transformarem em um novo material metamórfico. Há até uma beleza associada a diversidade de padrões em uma rocha assim.

"It's just a bad day, not a bad life"

Dada a impossibilidade de prever tudo o que está por vir, não criar expectativas irreais e ser grato por tudo o que vier é uma boa forma de lidar com a vida. Como eu já disse em uma publicação há muitos anos, a felicidade não é o destino final, mas o caminho. Obviamente, não é fácil viver, mas tudo que vale a pena na vida é difícil e, no final do dia, cabe apenas a nós decidirmos como vamos encarar a nossa vida. Isso pode não funcionar para todos (cada um é tão complexo e único!), mas, nesse sentido, é melhor temer o arrependimento mais do que ter receio de falhar e sofrer: machucados vão criar uma casca grossa em nosso coração para nos proteger, mas é apenas uma casca que não desvanece o brilho de nossa essência. Assim como é preciso trabalhar duro para encontrar os belos minerais no coração das minas, encontrar a beleza da vida, no interior de nossos corações, é uma escolha ativa e diária, mas que vale a pena!

"Life is worth the risk"

Daily Post

I finally have a very well-defined routine in the lab. I have a day set aside for preparing the feed, other days for analysis, and dedicated time for reading and writing. This routine definitely makes me feel more at ease. In many ways, my life could be described as a bit chaotic (just look at the posts on this blog, lol), but when it comes to the lab and science in general, I really need organization to function. By the way, in a few days, it will be one month since I got a Remarkable 2. It’s a game-changing device for people like me who love to sketch things in notebooks. I've been using it intensively to organize my tasks, brainstorm new ideas, and even take notes on experiments. Incredibly useful! I will leave a photo bellow!
That said, I'm sad to report that, after 20 days of operation, my reactors aren’t performing exactly as I’d hoped. 🥲 I have some clues about what might be happening, and I may make a few changes in the coming days. Let’s see.
In any case, I’m still really happy about the opportunities at Columbia University, it really makes a difference to be here with more experience and maturity as a postdoc. I have a clearer understanding of what I’m seeking and what I can find here to help me reach my goals as a scientist.
Making notes on a paper using Remarkable 2 device 


Post scriptum

Escrevendo ao som de "Tudo se transforma" de Jorge Dextler e pensando como a carreira acadêmica parece ser particularmente propícia a apagar a chama do coração pelo peso dos sentimentos e experiências infelizes. Quando se fala de pressão, tende-se a pensar em forças externas sendo exercidas sobre nosso interior. No entanto, na carreira acadêmica é muito comum que essa pressão seja gerada também internamente. É fácil perceber que o fel crescente nas publicações do RexAurum estão correlacionadas não apenas ao amadurecimento mas também á progressão na carreira acadêmica. Mas essa é uma conversa para outro dia..
Essa foi uma semana puxada no laboratório. E pra completar o pacote, eu comecei um treino de Boxe no Fitness Boxing 2, meus braços estão tão doloridos que estava difícil de usar as micropipetas no lab xD Estou me sentindo um pouco sobrecarregado também, especialmente porque tenho tarefas não finalizadas das atividades no Brasil - se eu conseguisse estantaneamente converter todos os dados que tenho em artigos, minha produção acadêmica no mínimo triplicaria. Mas, como disse, nada de criar expectativas irreais. Vou fazendo o que é possível com o máximo de dedicação. Essa semana tive uma reunião com uma ex-colega da Columbia por conta de uma palestra que vou dar na Universidade dela. Hoje ela é Professora no Boston College e foi muito legal conversar com ela sobre isso. Além disso, essa semana fui com a Nah assistir ao tradicional desfile de Halloween de Nova Iorque. A cidade muda completamente na noite de Halloween, eu não lembrava disso haha Foi divertidíssimo - vou deixar uma foto aqui pra ilustrar. E assim vamos mantendo o bom humor :)


Durante o desfile de halloween em NYC


terça-feira, 22 de outubro de 2024

Saudades, parte II

Antes de ler essa publicação, recomendo ler a primeira parte: Saudades

Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre conexões humanas. No meu post anterior, publicado há 6 anos, compartilhei como era difícil lidar com o balanço emocional em um contexto de distanciamento de entes queridos durante meu estágio de doutorado na Columbia University.

Hoje, gostaria de retomar esse tema sob uma nova perspectiva. Faz quase 3 meses que voltei para a Columbia University, desta vez para um estágio de pós-doutorado no mesmo grupo em que estive anteriormente. Curiosamente, minha experiência, em termos de balanço emocional, tem sido muito diferente. Vou explicar melhor, abordando três pontos principais:

1. Maturidade e experiência
O primeiro ponto a considerar é que, quando escrevi o post anterior, eu tinha 27 anos e nunca havia me distanciado tanto e por tanto tempo da família e dos amigos. Hoje, aos 34 anos, conheço melhor a mim mesmo e, principalmente, tenho mais experiência em morar fora.

2. Companhia
Na minha primeira experiência, vim totalmente sozinho, e todas as conexões que estabeleci foram construídas do zero. Agora, estou acompanhado pela Nah e já conheço outras pessoas em Nova York.

3. Mesmo lugar, tempo diferente
Esse é o ponto principal que me levou a refletir novamente sobre a importância das conexões humanas. Na minha estadia anterior, desenvolvi amizades muito fortes, especialmente porque o grupo de pesquisa era formado por muitos estrangeiros em situações semelhantes à minha. Hoje, após 5 ou 6 anos, todos os amigos que eram doutorandos regulares na Columbia já se graduaram e deixaram o grupo.

Com esses três pontos, é possível compreender melhor o contexto. Sinto saudades da família e dos amigos? Sim, mas hoje sei lidar melhor com isso, e Nova York não é mais um território desconhecido e potencialmente amedrontador. Por um lado, como deve ser fácil racionalizar, isso é ótimo. No entanto, há um aspecto menos evidente que gera um sentimento constante de saudade: estar em um ambiente repleto de memórias especiais com amigos que fiz aqui, mas não tê-los mais comigo presencialmente.

Para ilustrar, sempre que vou para a universidade, passo por um restaurante onde costumava jantar com meu querido amigo Chenghua. Ao chegar à Columbia, passo pelo portão onde me despedi da Lou Ge, quando ela estava deixando Nova York. Dentro da universidade, há inúmeras memórias, como os encontros aleatórios com a Yixi nas escadas e corredores do prédio de engenharia (ela era de outro grupo e não a encontrava no laboratório), ou as vezes em que almoçávamos todos juntos no prédio da biologia. No laboratório, essa sensação é ainda mais forte, pois era um dos lugares que mais compartilhava com meus amigos, e onde há mais vestígios pessoais deixados por eles — como o nome da Minxi e da Catherine em gavetas, frascos e equipamentos.

Nesse ponto, gostaria de ressaltar que, especialmente nas primeiras semanas, é estranho estar cercado por tantos sinais dos amigos, como se a qualquer momento um deles pudesse entrar no laboratório, mas nunca encontrá-los. Isso, de certa forma, gera uma saudade constante. Embora agora pareça um pouco óbvio, eu não previ esse lado meio perverso de ter memórias tão especiais aqui, que acaba gerando uma sensação de solidão.

É até um pouco irônico: desta vez estou mais preparado para lidar com a saudade dos entes queridos que deixei no Brasil, mas não estava pronto para enfrentar a saudade que encontrei aqui mesmo.

Isso me levou a refletir bastante sobre a importância das conexões humanas. Embora nossa individualidade seja algo valioso, não existimos isoladamente. Uma parte significativa de nossas vidas é moldada pelos tipos de conexões que formamos com outras pessoas ao longo do tempo.

Recentemente, estive lendo um livro sobre filosofia que ganhei de um amigo querido, Aprender a Viver: Filosofia para os Novos Tempos, de Luc Ferry. O autor é um filósofo que rejeita ferrenhamente a ideia de religião como uma forma de filosofia. Ainda assim Luc Ferry reconhece o papel dominante que o cristianismo teve sobre a filosofia ocidental e debate como ocorreu a ascensão do cristianismo e seu estabelecimento como a principal forma de pensar a salvação humana no ocidente por tantos séculos. O principal ponto é que a resposta do cristianismo à morte, ao contrário de correntes filosóficas dominantes até então, oferecia a possibilidade de reatar as conexões com entes queridos ao acessar o paraíso, em contraste com a ideia de retornar ao caos despersonalizado do cosmos natural sem uma alma a que se agarrar.

Com a ascensão da ciência, o cristianismo começou a perder força, enquanto outras correntes filosóficas que enfatizam o valor intrínseco do indivíduo ou do material em relação ao divino ganharam destaque. No entanto, mesmo hoje, essa resposta cristã oferece grande conforto, pois nos permite acreditar que as relações que desenvolvemos ao longo da vida não se perderão, mas, na realidade, persistirão eternamente, ao menos para aqueles que fizeram por merecer. O poder conquistado pelo cristianismo, fundamentado nessa ideia de salvação divina, demonstra claramente o valor que damos para os dos laços humanos. Mas por criar essas conexões com outras pessoas é tão valioso?

Antes de entrar mais a fundo nessa questão, gostaria de fazer um breve preâmbulo sobre as reflexões de um material que se relaciona com isso: a série de jogos Persona, especificamente Persona 4 Golden, lançado em 2012 para o PlayStation Vita. Eu joguei esse jogo ao longo do ano de 2018. A série Persona explora, de forma bastante aprofundada, a psicologia junguiana, apresentando os conceitos de Personas e Sombras.

De forma resumida, o objetivo principal do jogo é desenvolver sua persona, uma espécie de espírito que simboliza a personalidade que cada pessoa cria para lidar com o mundo em seu entorno, combatendo sombras e salvando outros personagens. As sombras representam características que as pessoas se recusam a aceitar como parte de sua personalidade, permanecendo aprisionadas e reprimidas em seu subconsciente. Quanto mais se rejeita uma sombra, mais ela se fortalece, até que pode assumir o controle da pessoa. Perceba que se propõe uma metáfora interessante para expressar os conceitos junguianos e nossa relação com nossos sentimentos.

Com isso em mente, chegamos aos dois pontos mais importantes que quero desenvolver com base no capítulo 4 da franquia: 1) a criação da persona; e 2) o fortalecimento da persona.

Criação da Persona: Cada protagonista da história precisa, antes de tudo, criar e assimilar sua persona. Nesse processo, o personagem deve confrontar sua própria sombra. No entanto, como mencionei antes, rejeitar a sombra e lutar contra ela apenas a fortalece. A persona só pode ser criada quando o personagem decide aceitar a sombra como parte de si, assimilando-a e tornando sua identidade mais completa. Acho fascinante como esse conceito é lindamente ilustrado no jogo. Caso alguém tenha curiosidade, pode conferir um exemplo aqui (spoilers): https://youtu.be/jNNYrSO6oTU?si=3YCa2w5DLlfOCQvh

Esse conceito de aceitação da sombra, inclusive, pode ser relacionado a uma frase que é repetida em todos os jogos da série Persona:

我は汝、汝は我
"I am thou, thou art I."
"Eu sou tu, tu es eu."

Fortalecimento da Persona: Após a criação da persona, o personagem precisa fortalecê-la. Esse processo se dá por meio da experiência adquirida em batalhas contra sombras (uma mecânica clássica de RPGs) e, de forma mais interessante para o que quero abordar, através da criação de vínculos afetivos e do fortalecimento desses vínculos com outros personagens — chamados de social links ou confidentes no jogo. Cada personagem no jogo representa um aspecto psicológico/emocional, ou um arquétipo, simbolizado pelas cartas do tarot. Alguns exemplos incluem:

Magician (O Mago): Relacionado à habilidade e ação, muitas vezes associado a personagens enérgicos ou impulsivos.
Priestess (A Sacerdotisa): Simboliza sabedoria, introspecção e mistério.
Empress (A Imperatriz): Representa a maternidade, criação e abundância.
Emperor (O Imperador): Relacionado à autoridade, poder e liderança.
Lovers (Os Amantes): Simboliza relacionamentos, escolhas e harmonia.

Arquétipos dos confidentes representados por cartas de Tarot


Perceba que a personalidade só pode ser formada plenamente quando se compreende que sua existência depende do reconhecimento e aceitação dos próprios defeitos e características indesejáveis. Esses aspectos, muitas vezes ignorados, também fazem parte da identidade. E essa personalidade se fortalece ao criar vínculos afetivos. Ou seja, a individualidade de uma pessoa só atinge sua plenitude quando se conecta com outras individualidades. Cada pessoa permanece uma persona independente, mas se fortalece mutuamente ao compartilhar experiências. Sensacional, não?

Enfim, era esse o ponto ao qual eu queria chegar. Em minha experiência pessoal, os laços que criei com os amigos nos EUA tornaram-se uma parte essencial da minha existência. Portanto, embora hoje eu seja mais maduro e tenha uma compreensão mais profunda da minha individualidade, a ausência dessas conexões gera um vácuo na estrutura sobre a qual essa individualidade se desenvolveu. Isso é natural e faz parte da vida. Amigos vêm e vão, laços se formam e se desfazem o tempo todo. Mas as memórias permanecem, e, às vezes, essas memórias são tão significativas que se entrelaçam na própria essência do ambiente ao nosso redor. Assim, o espaço físico ressoa com essas lembranças, e elas trazem à tona as conexões afetivas que já não estão mais presentes. A ausência dessas conexões, sem qualquer expectativa de retorno, causa desconforto para a individualidade, o que entendemos como saudade — e é aqui que chego ao ponto inicial desta reflexão.

Acho que a importância de criar essas conexões já está bastante clara. Mas uma questão que fica para reflexão é: até que ponto vale a pena criar memórias com base em conexões que sabemos que, com o tempo, irão se enfraquecer ou desaparecer? E se essas memórias ou os próprios laços tiverem significados diferentes para cada lado da conexão?

Para refletir sobre as perguntas que levantei, gostaria de propor um pequeno experimento. Há algum tempo, ouvi a seguinte frase (ou algo parecido): "temos o hábito de tirar fotos de tudo aquilo que valorizamos a ponto de temermos perder um dia". Com isso em mente, vamos analisar quais tipos de imagens predominam em sua galeria de fotos ou nas redes sociais. No caso das redes sociais, é importante considerar que há um segundo filtro: o que de fato queremos mostrar às pessoas.

Se olharmos nas redes sociais, encontraremos álbuns cheios de fotos de viagens, eventos, encontros com amigos, mas também de objetos materiais, fotos de si mesmo, de momentos do cotidiano, de itens de luxo, de animais de estimação, e assim por diante. Assumindo a premissa da frase acima, com algumas limitações, podemos tentar inferir o que cada pessoa valoriza mais e teme perder.

Quando decidi revisar meu Instagram com essa perspectiva, tive uma surpresa. Minhas fotos são basicamente sobre dois temas: momentos que me marcaram de alguma forma e encontros com pessoas próximas (você pode checar lá para tirar suas próprias conclusões). Nunca fiz isso conscientemente, mas parece mostrar a importância que memórias e conexões têm na minha vida.

Refletindo sobre isso, eu diria, de maneira ainda inicial, que isso reflete como essas experiências compõem nossa individualidade mais íntima, mesmo quando estão ligadas a outras pessoas. À primeira vista, isso parece um paradoxo: nosso ego/identidade mais interno e individual é, ao menos parcialmente, um produto de conexões com personas exteriores e experiências coletivas. Mas não é um paradoxo! E isso responde, de uma só vez, as duas perguntas que levantei anteriormente.

O ato de criar laços, mesmo com a consciência de que eles possam enfraquecer ou desaparecer com o tempo, é essencial para o fortalecimento de nossa identidade. A memória dessas conexões, mesmo que diferente para cada pessoa, molda quem somos e, por isso, vale a pena continuar criando essas relações, independentemente de sua durabilidade.

As memórias que criamos com nossos laços afetivos possuem um significado compartilhado, mas também um significado único e individual. As marcas, positivas ou negativas, que essas memórias criam em nossa identidade mais íntima não são alteradas pela percepção das outras pessoas. Vou tentar dar um exemplo mais prático: você criou uma memória importante com uma pessoa especial, que te marcou a ponto de, de alguma forma, moldar uma parte da sua identidade, e essa memória continua ressoando esse significado. Vamos dizer, você está sempre sorrido ao lembrar das emoções que sentiu naquele dia. Nada externo deveria interferir nessa experiência mais íntima. Por exemplo, digamos que você tem o poder de entrar na mente da pessoa com quem compartilhou tal experiência e percebe que a mesma memória não foi marcante e que não há nenhum significado especial para ela. Talvez você fique inclinado a pensar que tudo não passou de um engano e que deveria ressignificar totalmente o sentimento ligado àquela recordação e como ele se conecta com sua identidade. Eu diria que você não deveria se precipitar.

O significado ou valor compartilhado daquela memória pode até ser ressignificado, mas o valor individual de tal experiência deve permanecer, pois o que foi construído em seu íntimo seguirá para sempre. Se foi um momento feliz e agradável, que fortaleceu suas ferramentas para lidar com o mundo ao seu redor, por que isso deveria ser desconstruído pela percepção individual de outra pessoa?

Portanto, independentemente de como as conexões responsáveis pelas memórias estarão no futuro ou de quanto a percepção do outro lado da conexão se alinha com a sua visão, tal memória ainda tem um valor íntimo intrínseco que é imutável. Nesse sentido, muitas vezes a dor que sentimos é por acreditarmos que há uma inconsistência entre o valor mais íntimo e o valor compartilhado ou exterior, quando, no final das contas, são coisas essencialmente diferentes.

Voltando para questões filosóficas, talvez isso ecoe o que a filosofia existencialista diria sobre cada indivíduo ser responsável por criar seus próprios significados e valores. Mas não sei ao certo, como disse, são apenas reflexões rudimentares.

Daily Post

As I mentioned, part of my reflections on connections, memories, and philosophy are linked to a book I read recently. I'm very glad I have started reading as a hobby again in my daily routine. I have been trying to diversify the genres and subjects of the books I read as much as possible. This year, I have read around 12 books, including not only philosophy but also fantasy, sci-fi, biography, science, and politics. Interestingly, the last book I read, The naked sun, was written by Isaac Asimov, who earned his master's and PhD at Columbia University. Furthermore, this book imagines a world in which a very advanced human society, built upon sophisticated robot technology, resulted in disregarding the value of human connections. After finishing Asimov's book I started the second book in "The Three-Body Problem" series, a Chinese book recommended by my dear sister Minxi in 2018 - these books were in a list I created before even know I would be at Columbia University this year. Coincidence? 

Book "The Naked Sun", by Isaac Asimov - Columbia University in the background


Another interesting fact related to this publication is that while I was playing Persona 4 Golden in 2018, I started playing Persona 5 Royal this year. I’m still at the very beginning as I write this, but all the main themes of the Persona series are present. So many cycles in our lives, right?

Post Scriptum

Depois de muito trabalho organizando o laboratório e montando o experimento, tive uma semana bastante agradável na Columbia. Foi a primeira semana de operação dos meus reatores, sem grandes problemas. Também tive uma reunião bastante positiva com o supervisor, que apontou para perspectivas boas. Mas o ponto mais alto, e que está relacionado de muitas formas ao conteúdo principal da publicação, foi a visita da Minxi, minha irmãzinha do coração, a NY. Passei a semana toda entusiasmado com a possibilidade de revê-la. Ela passou uma sexta-feira a tarde no laboratório apresentando seu projeto de pós-doutorado atual e dando alguma mentoria para os alunos atuais do grupo da Columbia. Fico super feliz e orgulhoso de ver o progresso dela na carreira acadêmica. No sábado, aproveitamos a tarde para matar a saudade, passeando e conversando durante uma agradável tarde de outono no Central Park. vou deixar fotos desse momento registradas aqui na publicação, embora seja um dia que vou sempre guardar com muito carinho em meu coração. Bom, já deve estar bastante claro como isso se conecta com o conteúdo principal da publicação. Boa semana a todos!

Uma tarde agradável com minha irmãzinha do coração no Central Park


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Mais uma noite de insônia.

82 dias em quarentena por conta da pandemia de Covid19.

Eu deveria estar dormindo para acordar cedo e prosseguir com as atividades do pós-doutorado. Mas, por algum motivo, não consigo. O motivo, possivelmente é o excesso de café ingerido nas últimas horas, mas pode ser também um efeito sinérgico do estresse acumulado durante o período prolongado de quarentena e a falta de perspectiva decorrente da situação atual do mundo. Em especial no Brasil, que passa por um período turbulento de crise política, além da crises mundiais sanitária e econômica. 

Talvez eu só esteja um pouco deprimido. Não sei. Não sinto nada, na verdade. 

Como sei que amanhã de manhã terei poucas condições de ser produtivo, estou aproveitando essa madrugada pacata para produzir um pouco:

Desenho de uma das peças 

Fiz alguns ajustes em um desenho de uma peça do projeto de pesquisa, coloquei para imprimir e, vejam só, a impressora já finalizou a impressão há poucos minutos - enquanto escrevo. Também já iniciei o processo de submissão de um artigo do doutorado para a Nature Energy, de forma que amanhã só precisarei anexar o manuscrito atualizado e a cover letter. De qualquer forma, as chances de aceite são quase nulas.

Não vou me alongar muito, mas queria dizer, para potenciais leitores do futuro, que estamos passando por tempos sombrios, de muitas incertezas.  Testemunho situações e escuto relatos que me fazem crer que a ignorância e violência estão vencendo a luta contra a sabedoria e o amor ao próximo. O clima geral, para quem não se deixa enganar por promessas vazias pautadas em uma simplificação estúpida do mundo, é de tristeza, desânimo, desesperança, solidão, e eu não sou exceção. 

Quem sabe o que nos aguarda na próxima curva. Talvez uma surpresa boa?

Receio que muitos não estarão lá para conferir.